Sunday, April 21, 2013

Guadalajara, 7/2/2013, 21:00.

A pequena índia não teria mais que 11 anos, e o bebê de longos cabelos muito negros e gênero indefinido amarrado às suas costas não somaria mais de três. Ambos, como sua gorda mãe, que guiava a família pela avenida Corona repleta de movimento, vestiam-se com panos grossos muito coloridos. A jovem índia não parecia notar o fardo que trazia, tagarelando incansável como fazem as crianças de 11 anos; e, passando por um poste, segurou-se e rodopiou no meio de uma frase, como faria qualquer criança de 11 anos sem um bebê atado às costas. Nostalgia antecipada.

Primeira noite em Guadalajara com memórias frescas de México e Guanajuato.

Dos dias de exploração com Lara e Mozart às ruínas de Teotihuacán e ao centro da cidade; o impacto atemporal do Templo Mayor à sombra da fachada churriguerresca da catedral; os índios turísticos performando cronometrados rituais de purificação com suas ervas aromáticas; turistas e transeuntes, vendedores de artesanías e policiais, o registro histórico e ideológico de Diego Rivera no muralismo do Palácio Nacional, a simetria e mistério da Calçada dos Mortos entre as pirâmides do Sol e da Lua, e, do topo da primeira, a esturricada cancha mexicana marcada no horizonte por montes pardos.

A longa conversa estimulada por vinhos e chocolates no apartamento de Polanco, com todos os elementos do espectro emocional que permitem minha intimidade com Larissa.

O superbowl com Lara e Mozart no restaurante chinês em frente ao Café Ópera, onde repousa a marca de um tiro supostamente disparado por Zapata e onde bebemos mais margaritas do que podíamos e onde rimos da profusão de barulhos invariavelmente associados a um pedido de Pesos: o velho que esmurrava as cordas enferrujadas do velho violão (melancolicamente garboso em seu puído traje de gala), a jovem hippie com seu tambor, o realengo com suas notas estridentes, a boa banda tocando Beatles - todos ao mesmo tempo.

A noite de crepe promovida pela francesa Sol, seguida por uma corrida aos bares de la Condesa e uma sequência de tequila, mezcal e micheladas no bar em que a atraente cantora executava sucessos rancheros de todos os tempos, devidamente contextualizados pela mexicana Lulu.

A viagem de ônibus para Guanajuato, pelas planícies onduladas cobertas de espinhos e construções espontaneamente integradas à paisagem, a chegada à bela cidade além dos túneis. A indisposição estomacal que não impediu uma margarita no Jardin de la Unión, enquanto reuniam-se ao fim da tarde, nas escadarias do Teatro Juárez, os jovem à saída de uma callejonada.

E no dia seguinte, a exploração solitária que me levou a becos e escadarias nos quais a luz do sol e a sombra fresca divertiam-se numa espécie de pique-esconde da eternidade, ao Callejón del Beso e ao mercado - e eventualmente a Guadalajara, onde a displicente jovem índia com seu (sua) irmã(o) nas costas brinca de resumir, em seu gesto, a complicada história e a efusiva índole das pessoas que vivem há tanto tempo nesse pedaço de terra.