Tuesday, September 25, 2012

Quando você tá propenso, qualquer coisa é uma epifania.

Um dia importante no trabalho é nada. É só um dia.

Uma menina que você beija é tudo. Apesar de ser só uma menina.

Uma menina beijada e um dia trabalhado são nada. Um dia trabalhado e uma menina beijada são tudo.

Contanto que no final da história você seja capaz de, ao mesmo tempo, não se arrepender de nada e agradecer por nem todos os seus desejos terem se tornado realidade.

Thursday, September 20, 2012

Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Pode ser prenúncio do fim do mundo, supostamente logo ali em dezembro deste Ano do Senhor de dois mil e doze. Pode ser fuligem revolta da seca no cerrado. Pode ser poluição retida pela inversão térmica. Pode ser acúmulo de sono nas minhas retinas, pálpebras, cílios. Cumulotristis.

Passo pela porta no meio do corredor de paredes azuis febrilmente iluminadas. A sala é ainda mais escura. Digo bom dia e não recebo resposta. Penso em tocar o interruptor e romper a obscuridade que parece ao mesmo tempo emanar das coisas e penetrá-las. A súbita consciência dessa osmose soturna tem um estranho apelo cômico, e desisto de acender as luzes.

Incapaz de focalizar a visão na tela do computador, pergunto-me por quanto tempo mais suportarei fazer noitadas seguidas de manhãs de trabalho.

Parei de cantar "meu deus me responda uma coisa, me responda que eu quero saber: por que, por que existe a ressaca, meu deus, por quê, por quê, por quê?!", e agora, sem a mesma indignação angustiada, pergunto simplesmente "por que fica sempre pior, céus, por quê?!"

O fenômeno do agravamento da ressaca com a idade não está suficientemente descrito, mas certamente terá relação com aumento da sensibilidade para sentimentos ruins. Onde estarão os receptores de bad vibe? Na cabeça, certamente; nas têmporas, onde pulsa, onde dói. Uma glândula chamada "ressáquia".

Progressivamente destruída por happy hours em dia de semana e outros eventos, a ressáquia perde a capacidade de armazenar e processar as toxinas de culpa e horror - que, com o envelhecimento, caem direto na corrente sanguínea, produzindo manhãs cada vez mais desproporcionalmente gástricas.

Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Talvez a ressáquia divina não esteja funcionando como antes.

Sunday, September 16, 2012

No domingo à noite, aforismos bem construídos rivalizam com comédias românticas e prenunciam segundas-feiras tão boas quanto segundas-feiras podem ser.

Sempre destacam Margareth Thatcher pelo choque de liberalismo e pela dureza na queda, aparentemente generalizada em sua personalidade. Mas, a acreditar em Hollywood e nas compilações de internet, teria feito sucesso como tuiteira:

"Cuidado com os pensamentos, eles podem virar palavras. Cuidado com as palavras, elas podem virar ações. Cuidado com as ações, elas podem virar hábitos. Cuidado com os hábitos, eles podem virar seu caráter. Cuidado com seu caráter, ele pode virar seu destino. O que você pensa é o que você vai ser".

Vou testar o Princípio Thatcher e acordar anunciando para mim mesmo que devo malhar. Terei chegado à segunda frase. Medirei cientificamente quanto tempo levarei para passar à terceira. Se a primeira-ministra estiver certa, em breve a academia deixará de ser uma abstração irritante na minha fatura de cartão de crédito.
Algumas situações sociais produzem a brutal exposição da natureza humana, em todas as suas cores vis. Levar esses momentos ao limite pode oferecer importantes lições.

Acho que é isso que estão fazendo com essa greve dos servidores públicos. Nos jornais, começa como reivindicação, escala para luta de classe, termina como rancor generalizado. Pela minha janela, vejo começar com pronunciamentos em carros de som, que progressivamente se exaltam na repetição infindável de hinos e slogans, e culminam em cornetaço infindável.

Mas escutar "Índia, os seus cabelos", versão do Tiririca, por dois meses seguidos, durante todo o expediente, é diferente. É fora da curva e da capacidade humana de tolerar. Anotarei os efeitos para eventual mestrado em antropologia do crime.