Não é novidade que os sentimentos mais destruidores sejam os mais inspiradores. Também é notório que esses sentimentos sejam essencialmente os mesmos desde que o homem aprendeu a martelar cunhas na pedra para dar vazão aos eflúvios de suas emoções. Deve ter martelado em furioso frenesi, a reverberar na rocha para encontrar eco em outros corações. Até hoje.
Certamente falarei de vingança - mas não será hoje. Hoje falarei - não, não falarei: gritarei - sobre a ira. A fúria cega que acomete como uma possessão - e talvez seja - de alguma entidade feita de taquicardia e bile.
Erro. É impreciso identificar seus acessos como possessões, equivaleria a dizer que sua origem é externa. Não. O mais aterrador sobre a fúria em erupção é exatamente sabê-la feita de nós mesmos, em ebulição. É identificar, no terror dos punhos crispados, dentes trincados e palavras ulcerosas seus próprios músculos, nervos e o som estranhamente familiar da sua própria voz.
Escute a maré subindo. Escute as ondas quebrando na falésias do controle, insistentes; erodindo as grutas e os bolsões de ansiedade que terminarão por eclodir em chamas de labaredas que lamberão o céu e farão gargalhar as profundezas do mar, de onde partiram as ondas.
Escute a maré subindo antes que seja tarde.
Thursday, December 12, 2013
Sunday, April 21, 2013
Guadalajara, 7/2/2013, 21:00.
A pequena índia não teria mais que 11 anos, e o bebê de longos cabelos muito negros e gênero indefinido amarrado às suas costas não somaria mais de três. Ambos, como sua gorda mãe, que guiava a família pela avenida Corona repleta de movimento, vestiam-se com panos grossos muito coloridos. A jovem índia não parecia notar o fardo que trazia, tagarelando incansável como fazem as crianças de 11 anos; e, passando por um poste, segurou-se e rodopiou no meio de uma frase, como faria qualquer criança de 11 anos sem um bebê atado às costas. Nostalgia antecipada.
Primeira noite em Guadalajara com memórias frescas de México e Guanajuato.
Dos dias de exploração com Lara e Mozart às ruínas de Teotihuacán e ao centro da cidade; o impacto atemporal do Templo Mayor à sombra da fachada churriguerresca da catedral; os índios turísticos performando cronometrados rituais de purificação com suas ervas aromáticas; turistas e transeuntes, vendedores de artesanías e policiais, o registro histórico e ideológico de Diego Rivera no muralismo do Palácio Nacional, a simetria e mistério da Calçada dos Mortos entre as pirâmides do Sol e da Lua, e, do topo da primeira, a esturricada cancha mexicana marcada no horizonte por montes pardos.
A longa conversa estimulada por vinhos e chocolates no apartamento de Polanco, com todos os elementos do espectro emocional que permitem minha intimidade com Larissa.
O superbowl com Lara e Mozart no restaurante chinês em frente ao Café Ópera, onde repousa a marca de um tiro supostamente disparado por Zapata e onde bebemos mais margaritas do que podíamos e onde rimos da profusão de barulhos invariavelmente associados a um pedido de Pesos: o velho que esmurrava as cordas enferrujadas do velho violão (melancolicamente garboso em seu puído traje de gala), a jovem hippie com seu tambor, o realengo com suas notas estridentes, a boa banda tocando Beatles - todos ao mesmo tempo.
A noite de crepe promovida pela francesa Sol, seguida por uma corrida aos bares de la Condesa e uma sequência de tequila, mezcal e micheladas no bar em que a atraente cantora executava sucessos rancheros de todos os tempos, devidamente contextualizados pela mexicana Lulu.
A viagem de ônibus para Guanajuato, pelas planícies onduladas cobertas de espinhos e construções espontaneamente integradas à paisagem, a chegada à bela cidade além dos túneis. A indisposição estomacal que não impediu uma margarita no Jardin de la Unión, enquanto reuniam-se ao fim da tarde, nas escadarias do Teatro Juárez, os jovem à saída de uma callejonada.
E no dia seguinte, a exploração solitária que me levou a becos e escadarias nos quais a luz do sol e a sombra fresca divertiam-se numa espécie de pique-esconde da eternidade, ao Callejón del Beso e ao mercado - e eventualmente a Guadalajara, onde a displicente jovem índia com seu (sua) irmã(o) nas costas brinca de resumir, em seu gesto, a complicada história e a efusiva índole das pessoas que vivem há tanto tempo nesse pedaço de terra.
A pequena índia não teria mais que 11 anos, e o bebê de longos cabelos muito negros e gênero indefinido amarrado às suas costas não somaria mais de três. Ambos, como sua gorda mãe, que guiava a família pela avenida Corona repleta de movimento, vestiam-se com panos grossos muito coloridos. A jovem índia não parecia notar o fardo que trazia, tagarelando incansável como fazem as crianças de 11 anos; e, passando por um poste, segurou-se e rodopiou no meio de uma frase, como faria qualquer criança de 11 anos sem um bebê atado às costas. Nostalgia antecipada.
Primeira noite em Guadalajara com memórias frescas de México e Guanajuato.
Dos dias de exploração com Lara e Mozart às ruínas de Teotihuacán e ao centro da cidade; o impacto atemporal do Templo Mayor à sombra da fachada churriguerresca da catedral; os índios turísticos performando cronometrados rituais de purificação com suas ervas aromáticas; turistas e transeuntes, vendedores de artesanías e policiais, o registro histórico e ideológico de Diego Rivera no muralismo do Palácio Nacional, a simetria e mistério da Calçada dos Mortos entre as pirâmides do Sol e da Lua, e, do topo da primeira, a esturricada cancha mexicana marcada no horizonte por montes pardos.
A longa conversa estimulada por vinhos e chocolates no apartamento de Polanco, com todos os elementos do espectro emocional que permitem minha intimidade com Larissa.
O superbowl com Lara e Mozart no restaurante chinês em frente ao Café Ópera, onde repousa a marca de um tiro supostamente disparado por Zapata e onde bebemos mais margaritas do que podíamos e onde rimos da profusão de barulhos invariavelmente associados a um pedido de Pesos: o velho que esmurrava as cordas enferrujadas do velho violão (melancolicamente garboso em seu puído traje de gala), a jovem hippie com seu tambor, o realengo com suas notas estridentes, a boa banda tocando Beatles - todos ao mesmo tempo.
A noite de crepe promovida pela francesa Sol, seguida por uma corrida aos bares de la Condesa e uma sequência de tequila, mezcal e micheladas no bar em que a atraente cantora executava sucessos rancheros de todos os tempos, devidamente contextualizados pela mexicana Lulu.
A viagem de ônibus para Guanajuato, pelas planícies onduladas cobertas de espinhos e construções espontaneamente integradas à paisagem, a chegada à bela cidade além dos túneis. A indisposição estomacal que não impediu uma margarita no Jardin de la Unión, enquanto reuniam-se ao fim da tarde, nas escadarias do Teatro Juárez, os jovem à saída de uma callejonada.
E no dia seguinte, a exploração solitária que me levou a becos e escadarias nos quais a luz do sol e a sombra fresca divertiam-se numa espécie de pique-esconde da eternidade, ao Callejón del Beso e ao mercado - e eventualmente a Guadalajara, onde a displicente jovem índia com seu (sua) irmã(o) nas costas brinca de resumir, em seu gesto, a complicada história e a efusiva índole das pessoas que vivem há tanto tempo nesse pedaço de terra.
Thursday, March 28, 2013
Coyoacán, 2/2/2013, 17:00.
Os sinos da catedral de San Juan tocam sem a solenidade que já devem ter tido. Agora, a música mundana dos mariachis, dos vendedores de tamales, dos comediantes de rua, das crianças e seus apitos, dos eufóricos adolescentes e de todos os coadjuvantes do sábado em Coyoacán enroscam-se às badaladas, e fazem-nas quase pitorescas, como um relógio cuco marcando as horas num show de rock. Ainda assim, os sinos atraem alguns olhares, rostos que se voltam para cima e percebem o céu inteiramente azul, tão sereno que poderia ser fonte da brisa fresca asfixiada, ao nível do calçamento de pedra da Plaza Hidalgo, pelos cheiros de gordura dos asados, tacos, carvão e suor e fezes e cigarros. Acima, os sinos e a brisa fresca envolvem quase com ternura num manto de pureza a algazarra abaixo, onde a luminosidade amarela do fim de tarde, o latido de um cachorro e a gargalhada de uma menina paralisam o tempo, fabricam uma memória, e sugerem ser hora de buscar um alambre no Pepe Coyote e um mocha no Café Jarotcho.
Os sinos da catedral de San Juan tocam sem a solenidade que já devem ter tido. Agora, a música mundana dos mariachis, dos vendedores de tamales, dos comediantes de rua, das crianças e seus apitos, dos eufóricos adolescentes e de todos os coadjuvantes do sábado em Coyoacán enroscam-se às badaladas, e fazem-nas quase pitorescas, como um relógio cuco marcando as horas num show de rock. Ainda assim, os sinos atraem alguns olhares, rostos que se voltam para cima e percebem o céu inteiramente azul, tão sereno que poderia ser fonte da brisa fresca asfixiada, ao nível do calçamento de pedra da Plaza Hidalgo, pelos cheiros de gordura dos asados, tacos, carvão e suor e fezes e cigarros. Acima, os sinos e a brisa fresca envolvem quase com ternura num manto de pureza a algazarra abaixo, onde a luminosidade amarela do fim de tarde, o latido de um cachorro e a gargalhada de uma menina paralisam o tempo, fabricam uma memória, e sugerem ser hora de buscar um alambre no Pepe Coyote e um mocha no Café Jarotcho.
Li em algum lugar que tentar resolver os problemas de tráfego duplicando as estradas é como tentar resolver o problema da obesidade afrouxando o cinto. O julgamento implícito na frase e o vapor de sabedoria que ela exala são ícones do repúdio intelectual ao curto prazo.
Não sei por que tanta raiva do curto prazo.
Não chego a achar que no longo prazo todos estaremos mortos - em dias de fim do mundo, provavelmente não sobreviveremos ao médio prazo. Ainda assim.
Passei minhas duas últimas férias no exterior, comparecendo a casamentos. Há outros dois agendados. Em algum lugar, o longo prazo sorri, satisfeito.
A alegria com essas bodas e respectivas festas não obnubila minha inquietante dificuldade em romper a barreira do sonho.
Não sei por que tanta raiva do curto prazo.
Não chego a achar que no longo prazo todos estaremos mortos - em dias de fim do mundo, provavelmente não sobreviveremos ao médio prazo. Ainda assim.
Passei minhas duas últimas férias no exterior, comparecendo a casamentos. Há outros dois agendados. Em algum lugar, o longo prazo sorri, satisfeito.
A alegria com essas bodas e respectivas festas não obnubila minha inquietante dificuldade em romper a barreira do sonho.
A barata saiu do backspace e caminhou sem pressa na direção das teclas numéricas. Examinou um pigmento não identificado, interessou-se por um cílio caído. Hesitava entre seguir para o insert ou cruzar para o asterisco, quando as antenas captaram meu horror antes que se transformasse em ação e a barata, driblando o calendário de 2012 da Caixa com que investi, mergulhou entre o shift e o enter.
Nunca mais vi o inseto. Ao sacudir o teclado, exumei uma grande quantidade de dejetos que não me preocupei em reconhecer. As lêndeas, poeira, pelos, restos de comida não me interessavam. Sabia o que buscava.
Pedi álcool no almoxarifado e besuntei a estação de trabalho. No afã por desalojar o inimigo, não me ocorreu que estava usando guerra psicológica contra um animal de cerca de dois milímetros, provavelmente a alguns dias (ou horas) de atingir a idade adulta. Não conheço o ciclo de vida das baratas. Pensei em pesquisar na internet, mas elas detinham a posse computador.
Contive-me para avaliar a situação, ligeiramente ofegante no silêncio constrangido. Os olhares de soslaio esquivavam-se como percevejos. Alheios à minha trincheira, os demais funcionários da repartição seguiam desempenhando suas funções, no balé burocrático que nos faz células de um só organismo. E minha exaltação perturbava o ritmo peristáltico dos ofícios e memorandos.
A tela do computador permanecia estática, exibindo a fala de Polônio, na terceira cena do primeiro ato de Hamlet, que lia para procrastinar na terça-feira até então sem incidentes:
See thou character. Give thy thoughts no tongue,
Nor any unproportioned thought his act.
Be thou familiar, but by no means vulgar.
Those friends thou hast, and their adoption tried,
Grapple them to thy soul with hoops of steel;
But do not dull thy palm with entertainment
Of each new-hatch'd, unfledged comrade. Beware
Of entrance to a quarrel, but being in,
Bear't that the opposed may beware of thee.
Give every man thy ear, but few thy voice;
Take each man's censure, but reserve thy judgment.
Pelo menos não era pornografia.
Nunca mais vi o inseto. Ao sacudir o teclado, exumei uma grande quantidade de dejetos que não me preocupei em reconhecer. As lêndeas, poeira, pelos, restos de comida não me interessavam. Sabia o que buscava.
Pedi álcool no almoxarifado e besuntei a estação de trabalho. No afã por desalojar o inimigo, não me ocorreu que estava usando guerra psicológica contra um animal de cerca de dois milímetros, provavelmente a alguns dias (ou horas) de atingir a idade adulta. Não conheço o ciclo de vida das baratas. Pensei em pesquisar na internet, mas elas detinham a posse computador.
Contive-me para avaliar a situação, ligeiramente ofegante no silêncio constrangido. Os olhares de soslaio esquivavam-se como percevejos. Alheios à minha trincheira, os demais funcionários da repartição seguiam desempenhando suas funções, no balé burocrático que nos faz células de um só organismo. E minha exaltação perturbava o ritmo peristáltico dos ofícios e memorandos.
A tela do computador permanecia estática, exibindo a fala de Polônio, na terceira cena do primeiro ato de Hamlet, que lia para procrastinar na terça-feira até então sem incidentes:
See thou character. Give thy thoughts no tongue,
Nor any unproportioned thought his act.
Be thou familiar, but by no means vulgar.
Those friends thou hast, and their adoption tried,
Grapple them to thy soul with hoops of steel;
But do not dull thy palm with entertainment
Of each new-hatch'd, unfledged comrade. Beware
Of entrance to a quarrel, but being in,
Bear't that the opposed may beware of thee.
Give every man thy ear, but few thy voice;
Take each man's censure, but reserve thy judgment.
Pelo menos não era pornografia.
Subscribe to:
Comments (Atom)