Não é novidade que os sentimentos mais destruidores sejam os mais inspiradores. Também é notório que esses sentimentos sejam essencialmente os mesmos desde que o homem aprendeu a martelar cunhas na pedra para dar vazão aos eflúvios de suas emoções. Deve ter martelado em furioso frenesi, a reverberar na rocha para encontrar eco em outros corações. Até hoje.
Certamente falarei de vingança - mas não será hoje. Hoje falarei - não, não falarei: gritarei - sobre a ira. A fúria cega que acomete como uma possessão - e talvez seja - de alguma entidade feita de taquicardia e bile.
Erro. É impreciso identificar seus acessos como possessões, equivaleria a dizer que sua origem é externa. Não. O mais aterrador sobre a fúria em erupção é exatamente sabê-la feita de nós mesmos, em ebulição. É identificar, no terror dos punhos crispados, dentes trincados e palavras ulcerosas seus próprios músculos, nervos e o som estranhamente familiar da sua própria voz.
Escute a maré subindo. Escute as ondas quebrando na falésias do controle, insistentes; erodindo as grutas e os bolsões de ansiedade que terminarão por eclodir em chamas de labaredas que lamberão o céu e farão gargalhar as profundezas do mar, de onde partiram as ondas.
Escute a maré subindo antes que seja tarde.