Thursday, March 28, 2013

Coyoacán, 2/2/2013, 17:00.

Os sinos da catedral de San Juan tocam sem a solenidade que já devem ter tido. Agora, a música mundana dos mariachis, dos vendedores de tamales, dos comediantes de rua, das crianças e seus apitos, dos eufóricos adolescentes e de todos os coadjuvantes do sábado em Coyoacán enroscam-se às badaladas, e fazem-nas quase pitorescas, como um relógio cuco marcando as horas num show de rock. Ainda assim, os sinos atraem alguns olhares, rostos que se voltam para cima e percebem o céu inteiramente azul, tão sereno que poderia ser fonte da brisa fresca asfixiada, ao nível do calçamento de pedra da Plaza Hidalgo, pelos cheiros de gordura dos asados, tacos, carvão e suor e fezes e cigarros. Acima, os sinos e a brisa fresca envolvem quase com ternura num manto de pureza a algazarra abaixo, onde a luminosidade amarela do fim de tarde, o latido de um cachorro e a gargalhada de uma menina paralisam o tempo, fabricam uma memória, e sugerem ser hora de buscar um alambre no Pepe Coyote e um mocha no Café Jarotcho.
Li em algum lugar que tentar resolver os problemas de tráfego duplicando as estradas é como tentar resolver o problema da obesidade afrouxando o cinto. O julgamento implícito na frase e o vapor de sabedoria que ela exala são ícones do repúdio intelectual ao curto prazo.

Não sei por que tanta raiva do curto prazo.

Não chego a achar que no longo prazo todos estaremos mortos - em dias de fim do mundo, provavelmente não sobreviveremos ao médio prazo. Ainda assim.

Passei minhas duas últimas férias no exterior, comparecendo a casamentos. Há outros dois agendados. Em algum lugar, o longo prazo sorri, satisfeito.

A alegria com essas bodas e respectivas festas não obnubila minha inquietante dificuldade em romper a barreira do sonho.
A barata saiu do backspace e caminhou sem pressa na direção das teclas numéricas. Examinou um pigmento não identificado, interessou-se por um cílio caído. Hesitava entre seguir para o insert ou cruzar para o asterisco, quando as antenas captaram meu horror antes que se transformasse em ação e a barata, driblando o calendário de 2012 da Caixa com que investi, mergulhou entre o shift e o enter.

Nunca mais vi o inseto. Ao sacudir o teclado, exumei uma grande quantidade de dejetos que não me preocupei em reconhecer. As lêndeas, poeira, pelos, restos de comida não me interessavam. Sabia o que buscava.

Pedi álcool no almoxarifado e besuntei a estação de trabalho. No afã por desalojar o inimigo, não me ocorreu que estava usando guerra psicológica contra um animal de cerca de dois milímetros, provavelmente a alguns dias (ou horas) de atingir a idade adulta. Não conheço o ciclo de vida das baratas. Pensei em pesquisar na internet, mas elas detinham a posse computador.

Contive-me para avaliar a situação, ligeiramente ofegante no silêncio constrangido. Os olhares de soslaio esquivavam-se como percevejos. Alheios à minha trincheira, os demais funcionários da repartição seguiam desempenhando suas funções, no balé burocrático que nos faz células de um só organismo. E minha exaltação perturbava o ritmo peristáltico dos ofícios e memorandos.

A tela do computador permanecia estática, exibindo a fala de Polônio, na terceira cena do primeiro ato de Hamlet, que lia para procrastinar na terça-feira até então sem incidentes:

See thou character. Give thy thoughts no tongue,
Nor any unproportioned thought his act.
Be thou familiar, but by no means vulgar.
Those friends thou hast, and their adoption tried,
Grapple them to thy soul with hoops of steel;
But do not dull thy palm with entertainment
Of each new-hatch'd, unfledged comrade. Beware
Of entrance to a quarrel, but being in,
Bear't that the opposed may beware of thee.
Give every man thy ear, but few thy voice;
Take each man's censure, but reserve thy judgment.

Pelo menos não era pornografia.