Friday, November 23, 2012
Tuesday, October 23, 2012
Não tem tanto mistério na inextricável relação entre dor de cotovelo e poesia. Aventuras amorosas e os respectivos corolários são, enfim, o álibi literário perfeito. Com vodka, a reconstrução mnemônica de certos sábados à noite são intrigantes exercícios de ficção. A terceira pessoa, nesse caso, não é majestática: só o sujeito contando as peripécias do próprio hipotálamo.
Ah, o hipotálamo, esse órgão subestimado. Na literatura médica e no wikipedia, consta que a pequena bola de carne que todos trazemos meio palmo atrás dos olhos controla os processos metabólicos, as atividades autônomas do organismo, a temperatura corporal e o apetite, além de ser o principal centro da expressão emocional e do comportamento sexual. O que sobra, fica distribuído pelo resto do cérebro. Mas o que sobra, a depender da noite de sábado, da quantidade de vodka, das luzes vacilantes, da música frenética, do calor líquido...?
O hipotálamo, portanto, decidiu ir à festa depois que o resto do cérebro estava fora de combate. Escolheu, como fantasia, uma máscara de couro, para o rosto, e um tapete com as cores da bandeira do México, para o corpo.
Chegou ao local e viu as luzes, ouviu a música, sentiu o calor. Co-piloto rebelde, buscou mais vodka para assegurar-se de que o cérebro não reassumiria o comando. Guiou o corpo em círculos pelo perímetro e produziu sons desconexos com a boca. Quando o hipotálamo assume, não há tanta diferença entre o sujeito e uma cigarra.
Oh, pequeno órgão irascível, mãe anã de todos os pecados, o que você buscava? Bebida? Comida? Fumo? Sexo? Todos ao mesmo tempo? Buscava reconhecer outros hipotálamos por trás dos tantos olhos vidrados (como o seu próprio)?
Quanto tempo terá se passado, hipotálamo, até que o cérebro enfraquecido guardasse para a memória um flash daqueles lábios finos, do nariz cruel, dos olhos curiosos? Quem era a dona daquela voz insegura, que recitava um número de telefone? O que mais você terá dito, hipotálamo, o que terá ouvido? Você a beijou? Ela te beijou de volta?
E na manhã dos teus atos, pedaço vil de material neurológico, a mensagem no celular brota, como o girassol do poema de Ginsberg, dos destroços de cimento e aço da noite. "Quando mesmo você vem a SP?"
Pois de alguma forma, hipotálamo, se você é a fonte de todas as culpas, é também, e por isso, a raiz de todos os sonetos.
Ah, o hipotálamo, esse órgão subestimado. Na literatura médica e no wikipedia, consta que a pequena bola de carne que todos trazemos meio palmo atrás dos olhos controla os processos metabólicos, as atividades autônomas do organismo, a temperatura corporal e o apetite, além de ser o principal centro da expressão emocional e do comportamento sexual. O que sobra, fica distribuído pelo resto do cérebro. Mas o que sobra, a depender da noite de sábado, da quantidade de vodka, das luzes vacilantes, da música frenética, do calor líquido...?
O hipotálamo, portanto, decidiu ir à festa depois que o resto do cérebro estava fora de combate. Escolheu, como fantasia, uma máscara de couro, para o rosto, e um tapete com as cores da bandeira do México, para o corpo.
Chegou ao local e viu as luzes, ouviu a música, sentiu o calor. Co-piloto rebelde, buscou mais vodka para assegurar-se de que o cérebro não reassumiria o comando. Guiou o corpo em círculos pelo perímetro e produziu sons desconexos com a boca. Quando o hipotálamo assume, não há tanta diferença entre o sujeito e uma cigarra.
Oh, pequeno órgão irascível, mãe anã de todos os pecados, o que você buscava? Bebida? Comida? Fumo? Sexo? Todos ao mesmo tempo? Buscava reconhecer outros hipotálamos por trás dos tantos olhos vidrados (como o seu próprio)?
Quanto tempo terá se passado, hipotálamo, até que o cérebro enfraquecido guardasse para a memória um flash daqueles lábios finos, do nariz cruel, dos olhos curiosos? Quem era a dona daquela voz insegura, que recitava um número de telefone? O que mais você terá dito, hipotálamo, o que terá ouvido? Você a beijou? Ela te beijou de volta?
E na manhã dos teus atos, pedaço vil de material neurológico, a mensagem no celular brota, como o girassol do poema de Ginsberg, dos destroços de cimento e aço da noite. "Quando mesmo você vem a SP?"
Pois de alguma forma, hipotálamo, se você é a fonte de todas as culpas, é também, e por isso, a raiz de todos os sonetos.
Wednesday, October 10, 2012
Nós, os arrogantes, acreditamos que cabe tudo na pluralidade da cultura ocidental. Podemos ser ateus ou de deus, gregos ou goianos. Podemos negar tudo isso. Mas somos apenas tão diferentes quanto podemos ser. O aborígene australiano e o gigante islandês são opostos. Mas têm olhos, braços, pernas; são idênticos ao nascer e morrer. E, em termos genéticos, 97% iguais aos babuínos. Nós, os arrogantes ocidentais plurais, somos idênticos na carga cultural que carregamos sem ver. E acho que o primeiro salmo desse indelével fardo seria o tão macerado "melhor amar e sofrer do que jamais ter amado".
Mas já foi diferente. Antes de a literatura romântica esculpir em fogo e tuberculose a noção de que o amor é bom até quando é ruim, antes de hollywood martelar o conceito à exaustão com seus olhos azuis e finais felizes, os gregos mostraram que a única lei verdadeiramente universal a respeito do amor se escreve em uma palavra: depende.
Tinha Circe, a bruxa. Ou seria uma deusa má, não importa. Fato é que deu vinho e queijo para os marujos de Odisseu. Seduziu-os. Por alguns momentos, foi a rainha da festa, e todos a amaram e desejaram. Para homens dessensibilizados pela guerra, pelo mar e por existências limítrofes, queijo e vinho é amor. Imagino a cena.
Tinham acabado de sobreviver a uma gerra de doze anos. Tentavam voltar para casa em doze navios. Olhavam para o mar com ânsia, mesmo diante das evidências de que Posídon não expirava borbulhas de amor por seu capitão. Talvez simplesmente não pensassem nisso.
Talvez, na verdade, se culpassem. Não deveriam ter aberto o saco de couro do chefe. Imagino a cena. Odisseu sorridente, trazendo o saco a bordo. O marujo Sifudeu, conhecido e querido por seu jeito tosco-porém-franco, perguntando o que tinha dentro. O herói respondendo enigmaticamente que nada além de vento - e aquilo naquela hora era mais que ouro.
Sifudeu não discutiria com Odisseu, mas na penumbra do convés, entre goles de rum e caroços de azeitonas, instigaria a tripulação: ele vai carregar vento na sacola no dia em que a gente respirar ouro no ar. Além disso, o que poderia acontecer, se Ítaca já estava no horizonte? Além disso, o que poderia acontecer, se a gente desse uma olhada?
Sifudeu talvez tivesse negado tudo. Nunca admitiria a culpa de ter soltado Todos os Ventos de uma vez, provocando a tempestade que os trouxera de novo ao ponto de partida. Mas Odisseu não perguntou. Só restava começar a remar outra vez, e não havia tempo a perder com incriminações.
Voltar pela segunda vez era pior, e por algum motivo o mar não ajudava. Mas naquele ponto, já não se queixavam. Superar a temporada na ilha dominada por um rei canibal fora quase natural. Sobreviver era quase espontâneo. Mas encontrar Circe com seus queijos e vinhos era abrir o ventrículo de vento naqueles corações anestesiados e libertar a tempestade dentro de cada um.
E por isso os marujos de Odisseu amaram, e por isso abriram-se as brechas em suas carapaças curtidas, e por isso três ou quatro devem ter-se dado conta da vida que vinham levando, e por isso pelo menos dois devem ter-se deprimido, e talvez um tenha mesmo arriscado um poema. E por isso Circe os transformou a todos em porcos.
Com Odisseu, foi diferente. Não se apaixonou (mais tarde, circularia um dossiê sugerindo que estava drogado pelo deus Hermes). Circe não entendeu a indiferença do capitão. Deve ter tentado todos os truques sexuais conhecidos pelas deusas más. Deve ter tentado passear de mãos dadas. Deve ter tentado dormir de conchinha. E finalmente se entregou por inteira, perguntando o que posso fazer para você me amar. Odisseu pediu que os porcos fossem novamente convertidos em marujos, e recebeu de volta os braços de que precisaria para voltar para casa.
Para metade dos marujos, amar deve ter sido bom, mas ruim. Para a outra metade, deve ter sido ruim, mas bom. Para Circe, amar foi ruim. Para Odisseu, não amar foi bom.
De modo que assistir sozinho a uma partida do campeonato brasileiro nessa noite em que tanta gente parece estar fazendo alguma coisa com alguém - e ser completamente indiferente a isso - não deveria ser tão melancólico.
Mas já foi diferente. Antes de a literatura romântica esculpir em fogo e tuberculose a noção de que o amor é bom até quando é ruim, antes de hollywood martelar o conceito à exaustão com seus olhos azuis e finais felizes, os gregos mostraram que a única lei verdadeiramente universal a respeito do amor se escreve em uma palavra: depende.
Tinha Circe, a bruxa. Ou seria uma deusa má, não importa. Fato é que deu vinho e queijo para os marujos de Odisseu. Seduziu-os. Por alguns momentos, foi a rainha da festa, e todos a amaram e desejaram. Para homens dessensibilizados pela guerra, pelo mar e por existências limítrofes, queijo e vinho é amor. Imagino a cena.
Tinham acabado de sobreviver a uma gerra de doze anos. Tentavam voltar para casa em doze navios. Olhavam para o mar com ânsia, mesmo diante das evidências de que Posídon não expirava borbulhas de amor por seu capitão. Talvez simplesmente não pensassem nisso.
Talvez, na verdade, se culpassem. Não deveriam ter aberto o saco de couro do chefe. Imagino a cena. Odisseu sorridente, trazendo o saco a bordo. O marujo Sifudeu, conhecido e querido por seu jeito tosco-porém-franco, perguntando o que tinha dentro. O herói respondendo enigmaticamente que nada além de vento - e aquilo naquela hora era mais que ouro.
Sifudeu não discutiria com Odisseu, mas na penumbra do convés, entre goles de rum e caroços de azeitonas, instigaria a tripulação: ele vai carregar vento na sacola no dia em que a gente respirar ouro no ar. Além disso, o que poderia acontecer, se Ítaca já estava no horizonte? Além disso, o que poderia acontecer, se a gente desse uma olhada?
Sifudeu talvez tivesse negado tudo. Nunca admitiria a culpa de ter soltado Todos os Ventos de uma vez, provocando a tempestade que os trouxera de novo ao ponto de partida. Mas Odisseu não perguntou. Só restava começar a remar outra vez, e não havia tempo a perder com incriminações.
Voltar pela segunda vez era pior, e por algum motivo o mar não ajudava. Mas naquele ponto, já não se queixavam. Superar a temporada na ilha dominada por um rei canibal fora quase natural. Sobreviver era quase espontâneo. Mas encontrar Circe com seus queijos e vinhos era abrir o ventrículo de vento naqueles corações anestesiados e libertar a tempestade dentro de cada um.
E por isso os marujos de Odisseu amaram, e por isso abriram-se as brechas em suas carapaças curtidas, e por isso três ou quatro devem ter-se dado conta da vida que vinham levando, e por isso pelo menos dois devem ter-se deprimido, e talvez um tenha mesmo arriscado um poema. E por isso Circe os transformou a todos em porcos.
Com Odisseu, foi diferente. Não se apaixonou (mais tarde, circularia um dossiê sugerindo que estava drogado pelo deus Hermes). Circe não entendeu a indiferença do capitão. Deve ter tentado todos os truques sexuais conhecidos pelas deusas más. Deve ter tentado passear de mãos dadas. Deve ter tentado dormir de conchinha. E finalmente se entregou por inteira, perguntando o que posso fazer para você me amar. Odisseu pediu que os porcos fossem novamente convertidos em marujos, e recebeu de volta os braços de que precisaria para voltar para casa.
Para metade dos marujos, amar deve ter sido bom, mas ruim. Para a outra metade, deve ter sido ruim, mas bom. Para Circe, amar foi ruim. Para Odisseu, não amar foi bom.
De modo que assistir sozinho a uma partida do campeonato brasileiro nessa noite em que tanta gente parece estar fazendo alguma coisa com alguém - e ser completamente indiferente a isso - não deveria ser tão melancólico.
Tuesday, September 25, 2012
Quando você tá propenso, qualquer coisa é uma epifania.
Um dia importante no trabalho é nada. É só um dia.
Uma menina que você beija é tudo. Apesar de ser só uma menina.
Uma menina beijada e um dia trabalhado são nada. Um dia trabalhado e uma menina beijada são tudo.
Contanto que no final da história você seja capaz de, ao mesmo tempo, não se arrepender de nada e agradecer por nem todos os seus desejos terem se tornado realidade.
Um dia importante no trabalho é nada. É só um dia.
Uma menina que você beija é tudo. Apesar de ser só uma menina.
Uma menina beijada e um dia trabalhado são nada. Um dia trabalhado e uma menina beijada são tudo.
Contanto que no final da história você seja capaz de, ao mesmo tempo, não se arrepender de nada e agradecer por nem todos os seus desejos terem se tornado realidade.
Thursday, September 20, 2012
Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Pode ser prenúncio do fim do mundo, supostamente logo ali em dezembro deste Ano do Senhor de dois mil e doze. Pode ser fuligem revolta da seca no cerrado. Pode ser poluição retida pela inversão térmica. Pode ser acúmulo de sono nas minhas retinas, pálpebras, cílios. Cumulotristis.
Passo pela porta no meio do corredor de paredes azuis febrilmente iluminadas. A sala é ainda mais escura. Digo bom dia e não recebo resposta. Penso em tocar o interruptor e romper a obscuridade que parece ao mesmo tempo emanar das coisas e penetrá-las. A súbita consciência dessa osmose soturna tem um estranho apelo cômico, e desisto de acender as luzes.
Incapaz de focalizar a visão na tela do computador, pergunto-me por quanto tempo mais suportarei fazer noitadas seguidas de manhãs de trabalho.
Parei de cantar "meu deus me responda uma coisa, me responda que eu quero saber: por que, por que existe a ressaca, meu deus, por quê, por quê, por quê?!", e agora, sem a mesma indignação angustiada, pergunto simplesmente "por que fica sempre pior, céus, por quê?!"
O fenômeno do agravamento da ressaca com a idade não está suficientemente descrito, mas certamente terá relação com aumento da sensibilidade para sentimentos ruins. Onde estarão os receptores de bad vibe? Na cabeça, certamente; nas têmporas, onde pulsa, onde dói. Uma glândula chamada "ressáquia".
Progressivamente destruída por happy hours em dia de semana e outros eventos, a ressáquia perde a capacidade de armazenar e processar as toxinas de culpa e horror - que, com o envelhecimento, caem direto na corrente sanguínea, produzindo manhãs cada vez mais desproporcionalmente gástricas.
Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Talvez a ressáquia divina não esteja funcionando como antes.
Passo pela porta no meio do corredor de paredes azuis febrilmente iluminadas. A sala é ainda mais escura. Digo bom dia e não recebo resposta. Penso em tocar o interruptor e romper a obscuridade que parece ao mesmo tempo emanar das coisas e penetrá-las. A súbita consciência dessa osmose soturna tem um estranho apelo cômico, e desisto de acender as luzes.
Incapaz de focalizar a visão na tela do computador, pergunto-me por quanto tempo mais suportarei fazer noitadas seguidas de manhãs de trabalho.
Parei de cantar "meu deus me responda uma coisa, me responda que eu quero saber: por que, por que existe a ressaca, meu deus, por quê, por quê, por quê?!", e agora, sem a mesma indignação angustiada, pergunto simplesmente "por que fica sempre pior, céus, por quê?!"
O fenômeno do agravamento da ressaca com a idade não está suficientemente descrito, mas certamente terá relação com aumento da sensibilidade para sentimentos ruins. Onde estarão os receptores de bad vibe? Na cabeça, certamente; nas têmporas, onde pulsa, onde dói. Uma glândula chamada "ressáquia".
Progressivamente destruída por happy hours em dia de semana e outros eventos, a ressáquia perde a capacidade de armazenar e processar as toxinas de culpa e horror - que, com o envelhecimento, caem direto na corrente sanguínea, produzindo manhãs cada vez mais desproporcionalmente gástricas.
Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Talvez a ressáquia divina não esteja funcionando como antes.
Sunday, September 16, 2012
No domingo à noite, aforismos bem construídos rivalizam com comédias românticas e prenunciam segundas-feiras tão boas quanto segundas-feiras podem ser.
Sempre destacam Margareth Thatcher pelo choque de liberalismo e pela dureza na queda, aparentemente generalizada em sua personalidade. Mas, a acreditar em Hollywood e nas compilações de internet, teria feito sucesso como tuiteira:
"Cuidado com os pensamentos, eles podem virar palavras. Cuidado com as palavras, elas podem virar ações. Cuidado com as ações, elas podem virar hábitos. Cuidado com os hábitos, eles podem virar seu caráter. Cuidado com seu caráter, ele pode virar seu destino. O que você pensa é o que você vai ser".
Vou testar o Princípio Thatcher e acordar anunciando para mim mesmo que devo malhar. Terei chegado à segunda frase. Medirei cientificamente quanto tempo levarei para passar à terceira. Se a primeira-ministra estiver certa, em breve a academia deixará de ser uma abstração irritante na minha fatura de cartão de crédito.
Sempre destacam Margareth Thatcher pelo choque de liberalismo e pela dureza na queda, aparentemente generalizada em sua personalidade. Mas, a acreditar em Hollywood e nas compilações de internet, teria feito sucesso como tuiteira:
"Cuidado com os pensamentos, eles podem virar palavras. Cuidado com as palavras, elas podem virar ações. Cuidado com as ações, elas podem virar hábitos. Cuidado com os hábitos, eles podem virar seu caráter. Cuidado com seu caráter, ele pode virar seu destino. O que você pensa é o que você vai ser".
Vou testar o Princípio Thatcher e acordar anunciando para mim mesmo que devo malhar. Terei chegado à segunda frase. Medirei cientificamente quanto tempo levarei para passar à terceira. Se a primeira-ministra estiver certa, em breve a academia deixará de ser uma abstração irritante na minha fatura de cartão de crédito.
Algumas situações sociais produzem a brutal exposição da natureza humana, em todas as suas cores vis. Levar esses momentos ao limite pode oferecer importantes lições.
Acho que é isso que estão fazendo com essa greve dos servidores públicos. Nos jornais, começa como reivindicação, escala para luta de classe, termina como rancor generalizado. Pela minha janela, vejo começar com pronunciamentos em carros de som, que progressivamente se exaltam na repetição infindável de hinos e slogans, e culminam em cornetaço infindável.
Mas escutar "Índia, os seus cabelos", versão do Tiririca, por dois meses seguidos, durante todo o expediente, é diferente. É fora da curva e da capacidade humana de tolerar. Anotarei os efeitos para eventual mestrado em antropologia do crime.
Acho que é isso que estão fazendo com essa greve dos servidores públicos. Nos jornais, começa como reivindicação, escala para luta de classe, termina como rancor generalizado. Pela minha janela, vejo começar com pronunciamentos em carros de som, que progressivamente se exaltam na repetição infindável de hinos e slogans, e culminam em cornetaço infindável.
Mas escutar "Índia, os seus cabelos", versão do Tiririca, por dois meses seguidos, durante todo o expediente, é diferente. É fora da curva e da capacidade humana de tolerar. Anotarei os efeitos para eventual mestrado em antropologia do crime.
Tuesday, August 21, 2012
Começar a escrever é exatamente como começar a malhar. Recomeçar, também.
No início dói, mas você insiste porque sabe que ao cabo de alguns meses obterá resultados com os quais espera ser capaz de impressionar alguém. Ao cabo de alguns meses, ainda sem perceber resultados nem saber ao certo se está impressionando alguém, o hábito incorpora-se à rotina. Mais algum tempo e chega-se ao ponto em que o ato vale por si e figura no rol de pequenos prazeres onanistas da vida.
Então, sem motivo, você para.
Nunca parece definitivo.
Você se lembra exatamente de onde estava, quando parou. Acredita que basta voltar. Acredita que a qualquer momento voltará. Simplesmente não percebe que parou.
Você não vê as moléculas de instantes suspensos, não enxerga empilharem-se os tijolos feitos dos milhares e milhões de pequenos grãos de imobilidade que se acumulam entre você e a Última Vez.
E um dia, em fotografias antigas, você impressiona a si mesmo com os resultados obtidos antes de parar e se pergunta como não percebi antes. Como não percebi durante.
E você decide voltar. E só então percebe a imensa Muralha de Imobilidade construída a seu redor e adornada com arabescos de Falta de Motivação. Mas, resoluto, você decide botar a baixo o vergonhoso monumento à Inércia, da única forma conhecida pelo homem: bebendo e repetindo a si mesmo que segunda-feira será outro dia.
No início dói, mas você insiste porque sabe que ao cabo de alguns meses obterá resultados com os quais espera ser capaz de impressionar alguém. Ao cabo de alguns meses, ainda sem perceber resultados nem saber ao certo se está impressionando alguém, o hábito incorpora-se à rotina. Mais algum tempo e chega-se ao ponto em que o ato vale por si e figura no rol de pequenos prazeres onanistas da vida.
Então, sem motivo, você para.
Nunca parece definitivo.
Você se lembra exatamente de onde estava, quando parou. Acredita que basta voltar. Acredita que a qualquer momento voltará. Simplesmente não percebe que parou.
Você não vê as moléculas de instantes suspensos, não enxerga empilharem-se os tijolos feitos dos milhares e milhões de pequenos grãos de imobilidade que se acumulam entre você e a Última Vez.
E um dia, em fotografias antigas, você impressiona a si mesmo com os resultados obtidos antes de parar e se pergunta como não percebi antes. Como não percebi durante.
E você decide voltar. E só então percebe a imensa Muralha de Imobilidade construída a seu redor e adornada com arabescos de Falta de Motivação. Mas, resoluto, você decide botar a baixo o vergonhoso monumento à Inércia, da única forma conhecida pelo homem: bebendo e repetindo a si mesmo que segunda-feira será outro dia.
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