Não tem tanto mistério na inextricável relação entre dor de cotovelo e poesia. Aventuras amorosas e os respectivos corolários são, enfim, o álibi literário perfeito. Com vodka, a reconstrução mnemônica de certos sábados à noite são intrigantes exercícios de ficção. A terceira pessoa, nesse caso, não é majestática: só o sujeito contando as peripécias do próprio hipotálamo.
Ah, o hipotálamo, esse órgão subestimado. Na literatura médica e no wikipedia, consta que a pequena bola de carne que todos trazemos meio palmo atrás dos olhos controla os processos metabólicos, as atividades autônomas do organismo, a temperatura corporal e o apetite, além de ser o principal centro da expressão emocional e do comportamento sexual. O que sobra, fica distribuído pelo resto do cérebro. Mas o que sobra, a depender da noite de sábado, da quantidade de vodka, das luzes vacilantes, da música frenética, do calor líquido...?
O hipotálamo, portanto, decidiu ir à festa depois que o resto do cérebro estava fora de combate. Escolheu, como fantasia, uma máscara de couro, para o rosto, e um tapete com as cores da bandeira do México, para o corpo.
Chegou ao local e viu as luzes, ouviu a música, sentiu o calor. Co-piloto rebelde, buscou mais vodka para assegurar-se de que o cérebro não reassumiria o comando. Guiou o corpo em círculos pelo perímetro e produziu sons desconexos com a boca. Quando o hipotálamo assume, não há tanta diferença entre o sujeito e uma cigarra.
Oh, pequeno órgão irascível, mãe anã de todos os pecados, o que você buscava? Bebida? Comida? Fumo? Sexo? Todos ao mesmo tempo? Buscava reconhecer outros hipotálamos por trás dos tantos olhos vidrados (como o seu próprio)?
Quanto tempo terá se passado, hipotálamo, até que o cérebro enfraquecido guardasse para a memória um flash daqueles lábios finos, do nariz cruel, dos olhos curiosos? Quem era a dona daquela voz insegura, que recitava um número de telefone? O que mais você terá dito, hipotálamo, o que terá ouvido? Você a beijou? Ela te beijou de volta?
E na manhã dos teus atos, pedaço vil de material neurológico, a mensagem no celular brota, como o girassol do poema de Ginsberg, dos destroços de cimento e aço da noite. "Quando mesmo você vem a SP?"
Pois de alguma forma, hipotálamo, se você é a fonte de todas as culpas, é também, e por isso, a raiz de todos os sonetos.
Tuesday, October 23, 2012
Wednesday, October 10, 2012
Nós, os arrogantes, acreditamos que cabe tudo na pluralidade da cultura ocidental. Podemos ser ateus ou de deus, gregos ou goianos. Podemos negar tudo isso. Mas somos apenas tão diferentes quanto podemos ser. O aborígene australiano e o gigante islandês são opostos. Mas têm olhos, braços, pernas; são idênticos ao nascer e morrer. E, em termos genéticos, 97% iguais aos babuínos. Nós, os arrogantes ocidentais plurais, somos idênticos na carga cultural que carregamos sem ver. E acho que o primeiro salmo desse indelével fardo seria o tão macerado "melhor amar e sofrer do que jamais ter amado".
Mas já foi diferente. Antes de a literatura romântica esculpir em fogo e tuberculose a noção de que o amor é bom até quando é ruim, antes de hollywood martelar o conceito à exaustão com seus olhos azuis e finais felizes, os gregos mostraram que a única lei verdadeiramente universal a respeito do amor se escreve em uma palavra: depende.
Tinha Circe, a bruxa. Ou seria uma deusa má, não importa. Fato é que deu vinho e queijo para os marujos de Odisseu. Seduziu-os. Por alguns momentos, foi a rainha da festa, e todos a amaram e desejaram. Para homens dessensibilizados pela guerra, pelo mar e por existências limítrofes, queijo e vinho é amor. Imagino a cena.
Tinham acabado de sobreviver a uma gerra de doze anos. Tentavam voltar para casa em doze navios. Olhavam para o mar com ânsia, mesmo diante das evidências de que Posídon não expirava borbulhas de amor por seu capitão. Talvez simplesmente não pensassem nisso.
Talvez, na verdade, se culpassem. Não deveriam ter aberto o saco de couro do chefe. Imagino a cena. Odisseu sorridente, trazendo o saco a bordo. O marujo Sifudeu, conhecido e querido por seu jeito tosco-porém-franco, perguntando o que tinha dentro. O herói respondendo enigmaticamente que nada além de vento - e aquilo naquela hora era mais que ouro.
Sifudeu não discutiria com Odisseu, mas na penumbra do convés, entre goles de rum e caroços de azeitonas, instigaria a tripulação: ele vai carregar vento na sacola no dia em que a gente respirar ouro no ar. Além disso, o que poderia acontecer, se Ítaca já estava no horizonte? Além disso, o que poderia acontecer, se a gente desse uma olhada?
Sifudeu talvez tivesse negado tudo. Nunca admitiria a culpa de ter soltado Todos os Ventos de uma vez, provocando a tempestade que os trouxera de novo ao ponto de partida. Mas Odisseu não perguntou. Só restava começar a remar outra vez, e não havia tempo a perder com incriminações.
Voltar pela segunda vez era pior, e por algum motivo o mar não ajudava. Mas naquele ponto, já não se queixavam. Superar a temporada na ilha dominada por um rei canibal fora quase natural. Sobreviver era quase espontâneo. Mas encontrar Circe com seus queijos e vinhos era abrir o ventrículo de vento naqueles corações anestesiados e libertar a tempestade dentro de cada um.
E por isso os marujos de Odisseu amaram, e por isso abriram-se as brechas em suas carapaças curtidas, e por isso três ou quatro devem ter-se dado conta da vida que vinham levando, e por isso pelo menos dois devem ter-se deprimido, e talvez um tenha mesmo arriscado um poema. E por isso Circe os transformou a todos em porcos.
Com Odisseu, foi diferente. Não se apaixonou (mais tarde, circularia um dossiê sugerindo que estava drogado pelo deus Hermes). Circe não entendeu a indiferença do capitão. Deve ter tentado todos os truques sexuais conhecidos pelas deusas más. Deve ter tentado passear de mãos dadas. Deve ter tentado dormir de conchinha. E finalmente se entregou por inteira, perguntando o que posso fazer para você me amar. Odisseu pediu que os porcos fossem novamente convertidos em marujos, e recebeu de volta os braços de que precisaria para voltar para casa.
Para metade dos marujos, amar deve ter sido bom, mas ruim. Para a outra metade, deve ter sido ruim, mas bom. Para Circe, amar foi ruim. Para Odisseu, não amar foi bom.
De modo que assistir sozinho a uma partida do campeonato brasileiro nessa noite em que tanta gente parece estar fazendo alguma coisa com alguém - e ser completamente indiferente a isso - não deveria ser tão melancólico.
Mas já foi diferente. Antes de a literatura romântica esculpir em fogo e tuberculose a noção de que o amor é bom até quando é ruim, antes de hollywood martelar o conceito à exaustão com seus olhos azuis e finais felizes, os gregos mostraram que a única lei verdadeiramente universal a respeito do amor se escreve em uma palavra: depende.
Tinha Circe, a bruxa. Ou seria uma deusa má, não importa. Fato é que deu vinho e queijo para os marujos de Odisseu. Seduziu-os. Por alguns momentos, foi a rainha da festa, e todos a amaram e desejaram. Para homens dessensibilizados pela guerra, pelo mar e por existências limítrofes, queijo e vinho é amor. Imagino a cena.
Tinham acabado de sobreviver a uma gerra de doze anos. Tentavam voltar para casa em doze navios. Olhavam para o mar com ânsia, mesmo diante das evidências de que Posídon não expirava borbulhas de amor por seu capitão. Talvez simplesmente não pensassem nisso.
Talvez, na verdade, se culpassem. Não deveriam ter aberto o saco de couro do chefe. Imagino a cena. Odisseu sorridente, trazendo o saco a bordo. O marujo Sifudeu, conhecido e querido por seu jeito tosco-porém-franco, perguntando o que tinha dentro. O herói respondendo enigmaticamente que nada além de vento - e aquilo naquela hora era mais que ouro.
Sifudeu não discutiria com Odisseu, mas na penumbra do convés, entre goles de rum e caroços de azeitonas, instigaria a tripulação: ele vai carregar vento na sacola no dia em que a gente respirar ouro no ar. Além disso, o que poderia acontecer, se Ítaca já estava no horizonte? Além disso, o que poderia acontecer, se a gente desse uma olhada?
Sifudeu talvez tivesse negado tudo. Nunca admitiria a culpa de ter soltado Todos os Ventos de uma vez, provocando a tempestade que os trouxera de novo ao ponto de partida. Mas Odisseu não perguntou. Só restava começar a remar outra vez, e não havia tempo a perder com incriminações.
Voltar pela segunda vez era pior, e por algum motivo o mar não ajudava. Mas naquele ponto, já não se queixavam. Superar a temporada na ilha dominada por um rei canibal fora quase natural. Sobreviver era quase espontâneo. Mas encontrar Circe com seus queijos e vinhos era abrir o ventrículo de vento naqueles corações anestesiados e libertar a tempestade dentro de cada um.
E por isso os marujos de Odisseu amaram, e por isso abriram-se as brechas em suas carapaças curtidas, e por isso três ou quatro devem ter-se dado conta da vida que vinham levando, e por isso pelo menos dois devem ter-se deprimido, e talvez um tenha mesmo arriscado um poema. E por isso Circe os transformou a todos em porcos.
Com Odisseu, foi diferente. Não se apaixonou (mais tarde, circularia um dossiê sugerindo que estava drogado pelo deus Hermes). Circe não entendeu a indiferença do capitão. Deve ter tentado todos os truques sexuais conhecidos pelas deusas más. Deve ter tentado passear de mãos dadas. Deve ter tentado dormir de conchinha. E finalmente se entregou por inteira, perguntando o que posso fazer para você me amar. Odisseu pediu que os porcos fossem novamente convertidos em marujos, e recebeu de volta os braços de que precisaria para voltar para casa.
Para metade dos marujos, amar deve ter sido bom, mas ruim. Para a outra metade, deve ter sido ruim, mas bom. Para Circe, amar foi ruim. Para Odisseu, não amar foi bom.
De modo que assistir sozinho a uma partida do campeonato brasileiro nessa noite em que tanta gente parece estar fazendo alguma coisa com alguém - e ser completamente indiferente a isso - não deveria ser tão melancólico.
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