Thursday, September 20, 2012

Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Pode ser prenúncio do fim do mundo, supostamente logo ali em dezembro deste Ano do Senhor de dois mil e doze. Pode ser fuligem revolta da seca no cerrado. Pode ser poluição retida pela inversão térmica. Pode ser acúmulo de sono nas minhas retinas, pálpebras, cílios. Cumulotristis.

Passo pela porta no meio do corredor de paredes azuis febrilmente iluminadas. A sala é ainda mais escura. Digo bom dia e não recebo resposta. Penso em tocar o interruptor e romper a obscuridade que parece ao mesmo tempo emanar das coisas e penetrá-las. A súbita consciência dessa osmose soturna tem um estranho apelo cômico, e desisto de acender as luzes.

Incapaz de focalizar a visão na tela do computador, pergunto-me por quanto tempo mais suportarei fazer noitadas seguidas de manhãs de trabalho.

Parei de cantar "meu deus me responda uma coisa, me responda que eu quero saber: por que, por que existe a ressaca, meu deus, por quê, por quê, por quê?!", e agora, sem a mesma indignação angustiada, pergunto simplesmente "por que fica sempre pior, céus, por quê?!"

O fenômeno do agravamento da ressaca com a idade não está suficientemente descrito, mas certamente terá relação com aumento da sensibilidade para sentimentos ruins. Onde estarão os receptores de bad vibe? Na cabeça, certamente; nas têmporas, onde pulsa, onde dói. Uma glândula chamada "ressáquia".

Progressivamente destruída por happy hours em dia de semana e outros eventos, a ressáquia perde a capacidade de armazenar e processar as toxinas de culpa e horror - que, com o envelhecimento, caem direto na corrente sanguínea, produzindo manhãs cada vez mais desproporcionalmente gástricas.

Uma nuvem seca e cinza cobre Brasília. Talvez a ressáquia divina não esteja funcionando como antes.

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