Nós, os arrogantes, acreditamos que cabe tudo na pluralidade da cultura ocidental. Podemos ser ateus ou de deus, gregos ou goianos. Podemos negar tudo isso. Mas somos apenas tão diferentes quanto podemos ser. O aborígene australiano e o gigante islandês são opostos. Mas têm olhos, braços, pernas; são idênticos ao nascer e morrer. E, em termos genéticos, 97% iguais aos babuínos. Nós, os arrogantes ocidentais plurais, somos idênticos na carga cultural que carregamos sem ver. E acho que o primeiro salmo desse indelével fardo seria o tão macerado "melhor amar e sofrer do que jamais ter amado".
Mas já foi diferente. Antes de a literatura romântica esculpir em fogo e tuberculose a noção de que o amor é bom até quando é ruim, antes de hollywood martelar o conceito à exaustão com seus olhos azuis e finais felizes, os gregos mostraram que a única lei verdadeiramente universal a respeito do amor se escreve em uma palavra: depende.
Tinha Circe, a bruxa. Ou seria uma deusa má, não importa. Fato é que deu vinho e queijo para os marujos de Odisseu. Seduziu-os. Por alguns momentos, foi a rainha da festa, e todos a amaram e desejaram. Para homens dessensibilizados pela guerra, pelo mar e por existências limítrofes, queijo e vinho é amor. Imagino a cena.
Tinham acabado de sobreviver a uma gerra de doze anos. Tentavam voltar para casa em doze navios. Olhavam para o mar com ânsia, mesmo diante das evidências de que Posídon não expirava borbulhas de amor por seu capitão. Talvez simplesmente não pensassem nisso.
Talvez, na verdade, se culpassem. Não deveriam ter aberto o saco de couro do chefe. Imagino a cena. Odisseu sorridente, trazendo o saco a bordo. O marujo Sifudeu, conhecido e querido por seu jeito tosco-porém-franco, perguntando o que tinha dentro. O herói respondendo enigmaticamente que nada além de vento - e aquilo naquela hora era mais que ouro.
Sifudeu não discutiria com Odisseu, mas na penumbra do convés, entre goles de rum e caroços de azeitonas, instigaria a tripulação: ele vai carregar vento na sacola no dia em que a gente respirar ouro no ar. Além disso, o que poderia acontecer, se Ítaca já estava no horizonte? Além disso, o que poderia acontecer, se a gente desse uma olhada?
Sifudeu talvez tivesse negado tudo. Nunca admitiria a culpa de ter soltado Todos os Ventos de uma vez, provocando a tempestade que os trouxera de novo ao ponto de partida. Mas Odisseu não perguntou. Só restava começar a remar outra vez, e não havia tempo a perder com incriminações.
Voltar pela segunda vez era pior, e por algum motivo o mar não ajudava. Mas naquele ponto, já não se queixavam. Superar a temporada na ilha dominada por um rei canibal fora quase natural. Sobreviver era quase espontâneo. Mas encontrar Circe com seus queijos e vinhos era abrir o ventrículo de vento naqueles corações anestesiados e libertar a tempestade dentro de cada um.
E por isso os marujos de Odisseu amaram, e por isso abriram-se as brechas em suas carapaças curtidas, e por isso três ou quatro devem ter-se dado conta da vida que vinham levando, e por isso pelo menos dois devem ter-se deprimido, e talvez um tenha mesmo arriscado um poema. E por isso Circe os transformou a todos em porcos.
Com Odisseu, foi diferente. Não se apaixonou (mais tarde, circularia um dossiê sugerindo que estava drogado pelo deus Hermes). Circe não entendeu a indiferença do capitão. Deve ter tentado todos os truques sexuais conhecidos pelas deusas más. Deve ter tentado passear de mãos dadas. Deve ter tentado dormir de conchinha. E finalmente se entregou por inteira, perguntando o que posso fazer para você me amar. Odisseu pediu que os porcos fossem novamente convertidos em marujos, e recebeu de volta os braços de que precisaria para voltar para casa.
Para metade dos marujos, amar deve ter sido bom, mas ruim. Para a outra metade, deve ter sido ruim, mas bom. Para Circe, amar foi ruim. Para Odisseu, não amar foi bom.
De modo que assistir sozinho a uma partida do campeonato brasileiro nessa noite em que tanta gente parece estar fazendo alguma coisa com alguém - e ser completamente indiferente a isso - não deveria ser tão melancólico.
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