A barata saiu do backspace e caminhou sem pressa na direção das teclas numéricas. Examinou um pigmento não identificado, interessou-se por um cílio caído. Hesitava entre seguir para o insert ou cruzar para o asterisco, quando as antenas captaram meu horror antes que se transformasse em ação e a barata, driblando o calendário de 2012 da Caixa com que investi, mergulhou entre o shift e o enter.
Nunca mais vi o inseto. Ao sacudir o teclado, exumei uma grande quantidade de dejetos que não me preocupei em reconhecer. As lêndeas, poeira, pelos, restos de comida não me interessavam. Sabia o que buscava.
Pedi álcool no almoxarifado e besuntei a estação de trabalho. No afã por desalojar o inimigo, não me ocorreu que estava usando guerra psicológica contra um animal de cerca de dois milímetros, provavelmente a alguns dias (ou horas) de atingir a idade adulta. Não conheço o ciclo de vida das baratas. Pensei em pesquisar na internet, mas elas detinham a posse computador.
Contive-me para avaliar a situação, ligeiramente ofegante no silêncio constrangido. Os olhares de soslaio esquivavam-se como percevejos. Alheios à minha trincheira, os demais funcionários da repartição seguiam desempenhando suas funções, no balé burocrático que nos faz células de um só organismo. E minha exaltação perturbava o ritmo peristáltico dos ofícios e memorandos.
A tela do computador permanecia estática, exibindo a fala de Polônio, na terceira cena do primeiro ato de Hamlet, que lia para procrastinar na terça-feira até então sem incidentes:
See thou character. Give thy thoughts no tongue,
Nor any unproportioned thought his act.
Be thou familiar, but by no means vulgar.
Those friends thou hast, and their adoption tried,
Grapple them to thy soul with hoops of steel;
But do not dull thy palm with entertainment
Of each new-hatch'd, unfledged comrade. Beware
Of entrance to a quarrel, but being in,
Bear't that the opposed may beware of thee.
Give every man thy ear, but few thy voice;
Take each man's censure, but reserve thy judgment.
Pelo menos não era pornografia.
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